Atravessamentos
Colocar o barco para velejar
Há momentos em que a vida deixa de ser apenas compreendida…
e passa a ser sentida.
Não como ideia.
Não como teoria.
Mas como algo que atravessa.
Hoje eu me encontrei nesse lugar.
Um lugar em que o controle já não responde sozinho,
em que o pensamento não dá conta de organizar tudo,
em que o corpo fala antes —
e a emoção chega.
Chega firme.
Inteira.
Sem pedir licença.
E eu, que há algum tempo vinha caminhando com certa estabilidade,
me vi diante de algo que me convocou de outro jeito.
Não era sobre entender.
Era sobre sustentar.
Sustentar o que se sente sem fugir.
Sem endurecer.
Sem transformar tudo em explicação.
Porque existe um risco silencioso quando a gente começa a estudar, a compreender, a nomear o mundo:
o de se proteger demais…
e, sem perceber, deixar de sentir.
Hoje não.
Hoje eu senti.
E sentir, aqui, não foi fraqueza.
Foi presença.
Foi perceber que existe em mim uma abertura —
uma sensibilidade que não me afasta do caminho,
mas me coloca ainda mais dentro dele.
Não me perdi no que senti.
Mas também não me neguei.
Fiquei.
Observei.
Respirei.
Me reorganizei.
E, nesse movimento, algo muito sutil aconteceu:
eu me reconheci.
Reconheci que esse caminho que escolhi —
de estudar, de compreender o humano, de me aproximar daquilo que é psíquico —
não é um caminho de distância.
É um caminho de implicação.
Não existe neutralidade quando se trata da vida.
Existe presença.
E talvez seja isso que começa a nascer aqui:
uma forma de estar que não se anestesia,
mas também não se dissolve.
Uma forma de existir que sustenta o encontro —
com o outro,
mas, sobretudo, consigo.
Hoje eu entendi que não preciso esperar estar pronta.
Porque não é sobre isso.
É sobre aceitar que o mar se move,
que o vento muda,
que há dias de instabilidade.
E, ainda assim…
seguir.
Com consciência.
Com responsabilidade.
Com sensibilidade.
Sem me abandonar.
Hoje, pela primeira vez em algum tempo,
eu senti o peso — e a beleza — desse caminho.
E escolhi ficar.
Escolhi continuar.
Estou colocando meu barco para velejar.
Não porque o mar está calmo…
mas porque compreendi que é no movimento
que a travessia acontece.
