A Autonomia Não Nasceu Ontem
Hoje acordei devagar.
Daqueles domingos em que a pressa não encontra espaço para entrar pela porta. Minha cachorra continuava aninhada na cama, a quarta temporada de Bridgerton acabara de terminar e eu me permiti permanecer um pouco mais nesse lugar tranquilo que construí para mim.
Enquanto organizava documentos, currículos, certificados e memórias profissionais, aconteceu algo curioso.
Eu não estava apenas montando um currículo.
Eu estava reencontrando a minha própria história.
Durante muito tempo, enxerguei minha trajetória como uma sequência de capítulos aparentemente desconectados. Primeiro a Economia. Depois o mestrado. O ensino superior. A Matemática. A Pedagogia. Os projetos de empreendedorismo. As olimpíadas de matemática. A Psicologia. A Psicanálise.
Pareciam caminhos diferentes.
Mas, olhando com mais calma, percebi que havia uma linha invisível atravessando todos eles.
A autonomia.
Quando eu ministrava cursos de orçamento financeiro doméstico para trabalhadores e suas famílias, eu estava falando sobre autonomia.
Quando desenvolvia projetos de educação financeira para adolescentes, eu estava falando sobre autonomia.
Quando preparava alunos para a OBMEP e mostrava que eles eram capazes de resolver problemas que jamais imaginaram enfrentar, eu estava falando sobre autonomia.
Quando estimulava o protagonismo juvenil, o raciocínio lógico ou a recuperação da aprendizagem, eu estava falando sobre autonomia.
E agora, estudando Psicologia e Psicanálise, quando me interesso pelos processos de aprendizagem, pela saúde mental e pela construção da identidade, continuo falando sobre autonomia.
Só mudou a linguagem.
A verdade é que passei boa parte da vida ajudando pessoas a acreditarem que eram capazes de conduzir a própria história.
E talvez eu mesma estivesse aprendendo isso ao longo do caminho.
Muitas mulheres cresceram acreditando que autonomia é independência financeira. E ela é, sem dúvida, uma parte importante disso.
Mas hoje penso que autonomia é algo maior.
É a capacidade de sustentar as próprias escolhas.
É saber dizer sim quando deseja e não quando precisa.
É reconhecer os próprios limites sem sentir vergonha deles.
É abandonar relações que já não fazem sentido.
É voltar a estudar aos cinquenta anos.
É mudar de rota sem abandonar quem se é.
É compreender que amadurecer não significa endurecer.
Significa tornar-se cada vez mais consciente.
Há algum tempo, eu observava um veleiro desaparecer no horizonte e escrevia sobre ele. Eu estava parada na praia, olhando aquela embarcação seguir seu caminho até sumir de vista.
Hoje percebo que, de alguma forma, me tornei o próprio veleiro.
Não porque controle os ventos.
Mas porque aprendi a navegar com eles.
A autonomia que procuro hoje já não é a ilusão de controlar tudo.
É a serenidade de saber quem sou, de reconhecer o que me pertence e de continuar avançando mesmo quando não enxergo completamente a linha do horizonte.
Talvez seja isso que a maturidade tenha me ensinado.
A liberdade não nasce quando deixamos de depender dos outros.
A liberdade nasce quando passamos a habitar a própria vida com presença.
E, olhando para trás, percebo que foi exatamente essa busca que atravessou cada profissão, cada projeto e cada recomeço da minha história.
