Transição
Hoje o Instagram me devolveu uma fotografia de 2021. Eu estava loira, sentada no meu escritório, assistindo a uma aula online do primeiro ano da Pedagogia, em plena pandemia. Na imagem, apareço com os cabelos produzidos, óculos de gatinho, unhas feitas, lenço, livros ao fundo e a mão apoiada no rosto. Naquele momento, eu sustentava uma personagem muito específica: a professora.
E não qualquer professora. Eu já havia sido professora universitária, já dava aulas particulares há muitos anos, já tinha uma trajetória intelectual construída. Mas ainda não estava na rede pública e, talvez justamente por isso, existisse em mim uma necessidade muito grande de validação profissional. Eu precisava sustentar externamente a imagem de alguém extremamente preparada, extremamente organizada, extremamente competente. A pandemia também intensificava isso. O mundo estava fechado, os encontros eram mediados pela tela e o escritório havia se transformado no palco principal da vida intelectual.
O símbolo daquela fotografia era o livro. O conhecimento. O acúmulo. A formação. O espaço interno.
Cinco anos depois, outra fotografia. Dessa vez, tirada no Museu do Café, em Santos.
Já não estou no escritório. Estou em circulação.
E isso muda tudo.
O Museu do Café não é apenas um lugar bonito. Ele representa uma parte importante da história econômica do Brasil. Representa circulação de riqueza, de mercadorias, de pessoas, de ideias. Santos é a maior cidade portuária do país. Ali passaram navios, trabalhadores, imigrantes, exportações, histórias familiares, sonhos e deslocamentos. E é interessante perceber que justamente nessa cidade — uma cidade que também atravessa a minha história — eu tenha conseguido viver uma experiência mais cultural, mais histórica e mais simbólica. Não porque alguém me apresentou isso, mas porque eu mesma fui atrás.
A fotografia atual revela uma mulher menos produzida e mais integrada.
O cabelo voltou à cor natural. O óculos já não é o de gatinho; agora é redondo, quase “John Lennon”, mais intelectual do que performático. A camiseta é preta, simples. O rosto está mais livre. Não há mão apoiando a face. Não há necessidade de sustentar uma pose.
Existe presença.
E talvez essa seja a principal transição que tenho vivido nos últimos anos: a passagem de uma mulher que precisava sustentar personagens externos para uma mulher que começa a habitar a própria experiência de forma mais inteira.
Essa transição também aparece na minha trajetória profissional. A professora de matemática, a economista, a pedagoga e a docente continuam existindo em mim. Nada disso desapareceu. Mas algo novo começou a ocupar espaço: a futura psicóloga, a futura psicanalista, a observadora dos vínculos, dos silêncios, dos comportamentos e das estruturas subjetivas.
Curiosamente, essa mudança começou de dentro para fora.
Primeiro veio o silêncio. Depois vieram os limites. Depois a diminuição dos excessos. A redução dos estímulos. A necessidade de menos performance e mais profundidade. E agora, aos poucos, o corpo, a estética, os espaços e as fotografias começaram também a contar essa história.
Não é uma ruptura.
É uma travessia.
Uma travessia entre versões de mim mesma.


